sábado, 14 de março de 2026

The Barkley Marathons, por Cesar Condrati


The Barkley Marathons


Esse sonho para mim começou a mais de 10 anos, quando assisti o documentário na Netflix: The Barkley Marathons: The Race That Eats Its Young. Comecei a pesquisar tudo sobre a prova, e como conseguiria se inscrever, já que não é um procedimento claro, apesar de fácil. Tentei por uns 2 anos, acredito, não me recordo direito. O retorno não vinha, sequer falando que estava fora. Imaginei que os escolhidos eram cartas marcadas. Provavelmente eu não tivesse tanta experiência. E deixei de lado.


Até que apareceu o Enrico Frigeri, informando ter sido selecionado dentre os 40. De imediato não acreditei até que em 2022 quando ele postou suas fotos lá no Frozen Head State Park (FHSP), e contou como foi sua prova, floresceu novamente em mim a vontade de estar lá. Virava noites em claro pesquisando de novo, tive ajuda de  amigos, e consigo duas prováveis datas para a inscrição. Tento novamente, e nada. Nisso o Pedro Cianfarani também foi chamado, e correu em 2024. Para a edição de 2025, pela primeira vez, recebo um retorno do Lazarus. Me animou, mesmo não sendo ainda a escolha para a prova, mas um caminho que estava errado e eu teria de deixar de lado. 


Em minha segunda viagem para os EUA, em outubro/2025, conheci o Lazarus pessoalmente, durante o Mundial Individual de Backyard Ultra, onde o representante brasileiro foi o Geovane Griesang, inclusive escreveu o recorde Brasileiro com 55 voltas (eu estava lá nesse momento), e também visitei o FHSP, mas o pouco tempo disponível não fiz as trilhas, e sequer pude conhecer o Yellow Gate. Talvez essa viagem foi algum sinal. Encaminhei o essay dias depois, já no Brasil, até que recebo retorno com as "Condolências". Detalhe que não vi o primeiro e-mail, estava super atarefado no trabalho, só fui ver o segundo e-mail com o assunto "você recebeu as condolências?!", e dizendo que eu era o único que não se manifestou, e tinha apenas dois dias para confirmar. Ufa! Quase perdi ainda a entrada para Barkley!!! Não acreditei na hora... perguntei ao Enrico e ao Pedro, ambos logo me confirmaram que eu estava dentro. Era aquilo mesmo, eu seria o terceiro Brasileiro na Barkley. Tentava me inscrever meio que na certeza que nunca seria chamado, apesar de sempre ter uma certa esperança. Tal como apostar na mega sena, jogamos praticamente sabendo que é praticamente impossível acertar os 6 números. Mas... pode acontecer. E deu certo para mim. Não na mega, mas na Barkley!


Preenchi o formulário de inscrição. O valor da inscrição, simbólico, de USS 1.60 (um cent por quilômetro da prova), por sorte tinha trocado da viagem de semanas antes. Encaminho por Correios, no último dia do prazo. Estava previsto chegar alguns dias antes do segundo prazo, mas a correspondência atrasou, chegou dias depois! Apreensão se isso iria me tirar da prova. No grupo avisaram apenas que um atleta havia sido excluído pois treinou no FHSP fora das trilhas - não pode. Apenas nas trilhas é permitido.


Desde que recebi a confirmação no e-mail, comecei um treino exaustivo, aumentando drasticamente a quilometragem. Poucas vezes passava de 100km por semana antes, agora estava acima de 150km. Se soubesse exatamente o que me esperava (não dei muito ouvido ao que falaram, imaginei que não seria tão difícil), teria feito diferente, mas minha rotina também não permitia muitas mudanças. Mesmo diante da incerteza se eu estaria de fato inscrito mesmo, ou não, segui com o planejamento. Idem com os itens para a viagem, passagem, hospedagem. Correndo contra o tempo.


Nessa prova pode ter apenas uma pessoa no apoio. Cogitei pelo menos uns cinco nomes, amigos, que poderiam estar comigo lá. A minha escolha foi alguém que eu tivesse bastante contato (que me conhecesse correndo), soubesse fazer um perfeito apoio na corrida (conhecer a corrida e como apoiar um atleta), e com um inglês fluente. Mandei mensagem para o Raphael Bonatto. Respondeu na hora aceitando!

A data da prova todos os atletas já sabiam, divulgado num grupo exclusivo do Facebook, onde também estão atletas da lista de espera e mais os organizadores. Mas essa data não pode tornar público. Pela primeira vez seria em meados de fevereiro, adiantando em mais de um mês em relação aos anos anteriores. Estaria mais dentro do inverno, e isso significaria que a média de temperatura seria mais baixa, exatamente o que aconteceu, a largada foi com -2ºC às 06h00. No alto das montanhas, estava mais frio ainda, dizem que no dia seguinte estava -5ºC com chuva enquanto marcava 6º-7ºC na base.


A viagem de Curitiba para o Tennessee foi quase em segredo, para não dar "dicas" aos que ficam caçando a provável data da prova (inclusive o atleta que divulgar  pode ser retirado da prova, e um que postou uma foto no aeroporto quase foi expulso). Ficamos 3 dias e meio em Orlando, recepcionados muito bem pela Simone, Cassiano, e seus filhos. Bonatto aproveitou para rever o seu filho que mora próximo.


Entre Orlando, Flórida, e Wartburg, Tennessee, viajamos de carro por mais de mil quilômetros, divididos em dois dias, chegamos no FHSP na sexta-feira início da tarde, após passar por um Walmart e comprar praticamente tudo que precisaria para a prova. Somente ali tive a certeza que estava no jogo. Meu nome constava na lista, havia uma vaga de estacionamento específica para colocar o carro. No meio da tarde entreguei a minha placa de carro para o organizador, Carl Laniak (os novatos levam uma placa; quem já correu mas nunca completou tinha que levar objetos de sua cultura local; e os finalistas um maço de cigarro). Com isso recebi meu numeral (61), e as instruções para localizar todos os livros (um total de 16 nesse ano, acima da média, e acredito que o recorde).


Numa mesa ao lado estava um mapa com os exatos locais de onde encontraria os livros, e o caminho para chegar até eles. Os livros sempre fora das trilhas, e os caminhos quase sempre fora também (pouquíssimas vezes conseguiria ficar na trilha). Não podia tirar foto, só copiar olhando. Eu havia impresso em vinil, ainda no Brasil, um mapa que peguei do site do parque, mas alguns livros estava em pontos fora desse meu mapa. Era diferente do padrão deles. Então fui ao Centro de Visitantes e adquiri um mapa padrão, igual ao que tinha sobre a mesa. Era de papel, tinha que tomar cuidado para não molhar. Se chover, estragaria tudo. Transcrevi os pontos em meu mapa e tracei os percursos. Fomos para a casa alugada no centro de Wartburg (distante 10km do parque), estudar as instruções. Muitas palavras eram diferentes, e sem muita precisão nos detalhes. Tentamos com AI, ajudou, mas mesmo assim a tradução estava incerta. A saída seria acompanhar algum veterano, portanto, que já conheceria o parque, sem precisar navegar com o mapa.


A largada seria a qualquer momento, entre meia noite e meio dia do sábado 14/02. Só seria avisado uma hora antes, com o toque da concha. Retornamos ao parque pouco antes das onze da noite (a concha poderia ser tocada às 23h, para largar meia noite, por exemplo). Era a noite mais fria dos dias próximos. Estava com um colchão inflável na parte de trás do carro, e consegui dormir um pouco, apesar do aperto, frio e ansiedade. Acordei de fato às 05h00 com o toque da concha. Me preparei, fui buscar o relógio fornecido pela organização (único aparelho eletrônico permitido, já que só pode utilizar o mapa, bússola, e o caderno de instruções), e largamos exatamente as 06h00. Dois pontos inéditos aqui: não foi no Yellow Gate original (o local estava em reforma), e a primeira volta que sempre ocorreu no sentido horário, esse ano foi no sentido anti-horário. A dinâmica da prova seria duas no sentido anti-horário, e outras duas ao contrário (lembrando que a última é sempre escolhida pelo primeiro atleta, e alternada para os próximos, com isso não seguem juntos como ocorreu em 2001, só acontece isso se saírem 3 ou mais atletas juntos).


Usei na prova, uma calça segunda pele e outra por cima, meia de compressão até o joelho, camiseta segunda pele e outra manga longa por cima, jaqueta impermeável, gorro, necklace e luva. Foi o suficiente para as temperaturas negativas, principalmente nas partes altas da prova. Aos poucos fui tirando as peças conforme esquentava. A alimentação e hidratação foi tudo num colete. Percebi depois que a água poderia utilizar as dos rios, além de dois pontos de reabastecimento no percurso.


Os livros são colocados em locais alternados, que façam o atleta subir e descer praticamente todas as montanhas do parque. A primeira parte da prova já iniciava em subida, mantive com o primeiro pelotão (em torno de 20 atletas) até quase o cume. Estavam aí, Mathieu Blanchard, Max King, Damian Hall, John Kelly, dentre outros atletas renomados. O livro estava descendo do outro lado desse cume, e então os atletas mais fortes seguiram bem na frente. Fiquei pouco atrás, mas o suficiente para ver onde estava o primeiro livro. Já na saída desse, havia uma grande subida, vi apenas um atleta, sinceramente, não sei como dispersou bastante. Esse atleta pegou uma linha pouco mais para a esquerda, e eu pela direita. Ele cravou, e eu em seguida peguei minha página do segundo livro. Saímos juntos, descendo a encosta, encontramos outra atleta, e seguimos nós três. O terceiro livro estava na prisão, Brushy Mountain State Penitentiary, onde a história da prova se originou (fuga do James Earl Ray, assassino de Martin Luther King, que ficou menos de 55 horas foragido e percorreu quase 20 quilometros apenas), eu fui por um lado, eles por outro, e coletamos a terceira página.


Na saída da prisão, passamos pelo túnel de água, atravesa por toda a extensão maior, por baixo, uns 250m com água pelo tornozelo), e então vem a temida subida do Rat Jaw, com seus espinhos (imagem ao lado). Juro que me surpreendi, não foi tão difícil quanto imaginei. Repomos a água na Lookout Tower, e seguimos para pegar o livro 4 logo adiante. Dali tinha uma grande descida, muito técnica, até chegar num rio, o livro estaria numa parede de pedras (não entendi muito bem as instruções, imaginei ser um paredão), não achamos, ficamos mais de 40min procurando, se juntaram a nós outros atleta, até que um localizou a parede, e eu achei o livro num canto dela. A partir daí ficamos entre 5 e 8 atletas, quase todos novatos, às vezes uns iam por um caminho e outros por outro, mas sempre nos encontrávamos no livro seguinte. O caminho para o livro 9, dividiu bem o grupo, eu fiz uma decisão de só continuar descendo, contra a decisão da maioria de seguir pouco mais adiante para então depois descer. Fomos em três (depois quase no final a Emma Stuart nos encontrou). Na descida, onde normalmente ía escorregando, bati meu joelho numa pedra, além de dar indícios de cãibras. Em seguida chegamos no livro, reencontramos todos novamente, e seguimos para o livro 10, num cume, ou seja, só subida. No meio da subida decidi parar um pouco, a dor no joelho aumentou, além do cansaço das muitas subidas e descidas técnicas e íngremes. Tomei um Advil, aproveitei para me alimentar melhor, e hidratar. O grupo seguiu à frente. Voltei a subir, alternando com algumas paradas curtas, já não avistava mais o grupo. Achei o livro 10 sozinho, em menos de um minuto ao chegar no cume. Saí em busca do próximo livro, nesse pegava uns 500m de trilha, e exatamente num pequeno cume tinha que sair a direita pela crista, ali reencontrei o grupo. Após o livro 13, o grupo novamente se separou, idem para o livro 5. A noite caiu, junto com a temperatura e um pouco de chuva. Acendemos as lanternas. O grupo se reencontrou novamente ao final da subida, mas o livro estava mais adiante lá embaixo.


Às 19h20 o tempo limite de 13h20 se esgotou, era o corte, não poderíamos mais iniciar a segunda volta, nossa prova chegou ao fim. mas todos queriam achar os 3 últimos livros e fazer o percurso completo. Dali em diante seguimos até o final todos juntos, com algumas imprecisões na navegação, mas sempre um ajudando ao outro. E com pouco mais de 17h, antes da meia noite, eu e os outros 7 amigos, todos juntos, tocamos no Yellow Gate original. Ainda não era a chegada, seguimos por mais uns 400m, atravessamos o rio para então tocar no Yellow Gate provisório, e decretar nosso final de prova após uma volta completa e com as 16 páginas dos 16 livros, quase 40 anos após a primeira edição (01/03/1986). Recebemos individualmente o canto de corneta, finalizando nossa inédita participação na Barkley Marathons.


Os 8: Iain Bethune (Escócia), Cesar Condrati (Brasil), Stephen Redfern (Austrália), CJ LaRoche (Ohio EUA), Dawn Stone (Arizona EUA), Matt Bixley (Nova Zelândia), Emma Stuart (Irlanda), Allison Powell (Montana, EUA)


Curiosidades: A prova foi criada em 1986, mas com aproximadamente 80-90km. Em 1989 é que foi aumentado para 100 milhas, pois no ano anterior (1988), Ed "Frozen" Furtaw conclui o percurso de 3 voltas e próximo de 90km em 32h14.

Em 1990 teve o primeiro atleta internacional, vindo da Alemanha.

Em 1995 é que foi introduzido no atual formato, com 5 voltas de 20 milhas, tempo máximo de 60h, e Mark Williams finalizou com 59h28'48".

Em 1996 foi estipulado que as voltas 3 e 4 fossem no sentido contrário, e a volta 5 o atleta escolhe a direção.

Em 2003, após dois atletas finalizarem juntos o percurso inteiro na corrida anterior (2001), decidiu-se que para a volta 5, o primeiro atleta escolheria a direção, e os próximos seguiriam em sentidos alternados.

O túnel da penitenciária foi incluso no percurso em 2009, após o fechamento da prisão (agora é um museu).

Em 2024 a primeira mulher, Jasmin Paris, completou a prova, com 59h58'21". Foi também o maior tempo dentre todos os finalistas, faltando apenas 99 segundos para o corte da prova.


Teve portanto, incluindo essa edição de 2026, um total de 39 edições, sendo 36 com 100 milhas (não teve prova em 2002 devido ao fechamento temporário do FHSP, e em 2020 por causa da pandemia Covid-19). Apenas 20 atletas conseguiram concluir as 100 milhas, totalizando 26 finalizações. São eles:


1995 Mark Williams 59:28:48 Primeiro finalista
2001 David Horton 58:21:00 Novo Recorde
2001 (2) Blake Wood 58:21:01
2003 Teddy Keizer 56:57:52 Novo Recorde
2004 Mike Tilden 57:25:18
2004 (2) Jim Nelson 57:28:25
2008 Brian Robinson 55:42:27 Novo Recorde
2009 Andrew Thompson 57:37:19
2010 Jonathan Basham 59:18:44
2011 Brett Maune (1) 57:13:33
2012 Brett Maune (2) 52:03:08 Recorde atual
2012 (2) Jared Campbell (1) 56:00:16
2012 (3) John Fegyveresi 59:41:21
2013 Nick Hollon 57:39:24
2013 (2) Travis Wildeboer 58:41:45
2014 Jared Campbell (2) 57:53:20
2016 Jared Campbell (3) 59:32:30
2017 John Kelly (1) 59:30:53
2023 Aurélien Sanchez 58:23:12
2023 (2) John Kelly (2) 58:42:23
2023 (3) Karel Sabbe 59:53:33
2024 Ihor Verys 58:44:59
2024 (2) John Kelly (3) 59:15:38
2024 (3) Jared Campbell (4) 59:30:32
2024 (4) Greig Hamilton 59:38:42
2024 (5) Jasmin Paris 59:58:21 Primeira mulher finalista


Multi concluíntes:
4x Jared Campbell
3x John Kelly
2x Brett Maune

Obs.: Enquanto finalizo esse texto, quase meia noite de 14/03/2026, exatamente um mês atrás eu estava em algum lugar do Frozen Head State Park, buscando um livro escondido na mata, durante a The Barkley Marathons, realizando esse sonho.
Obs.2: algumas datas e detalhes foram deixados propositalmente de fora desse relato.

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